Como é ser engenheiro nos dias de hoje?

Eu sou um engenheiro da velha guarda, confesso!

Sou da geração Xerox, anterior à internet e às redes sociais. Rato de bibliotecas, de um tempo em que tudo era mais difícil – e eu SOBREVIVI! Esta árdua formação me preparou, e muito bem, para os dias de hoje!

Tive a felicidade de fazer a minha graduação e pós na UFRGS, em um dos melhores cursos de Engenharia Mecânica do Brasil. Durante a graduação, fiz sólido trabalho de pesquisa voluntária em laboratório. Pela produção acadêmica, fui convidado para o mestrado, fazendo parte de uma elite de pesquisadores da instituição. Escolhi a biomecânica como área de pesquisa, caminho pelo qual a engenharia e a medicina andam juntas. Minha formatura da graduação foi em 1994, ano em que iniciei o mestrado na instituição.

Eram tempos bem diferentes!

A internet estava engatinhando, e ganhei o meu primeiro e-mail no servidor Vortex da UFRGS. Em 1994 ninguém tinha e-mail! Era pelo Telnet, no ambiente DOS! O Windows estava na versão 3.0, e eu achava diferente aquele ambiente gráfico de ícones, contrastando com a tela escura do ambiente DOS… Conseguem imaginar tudo isso?

Logo o Windows se popularizou e transformou a nossa vida. Por estar em ambiente acadêmico, eu tinha amplo acesso às redes de pesquisa. Concluí o mestrado em 1997, com bolsa do CNPQ. Para o doutorado não teria bolsa de estudos, mas, quando estava apresentando a dissertação para a banca, recebi o convite para ser docente no Centro Tecnológico de Mecatrônica – SENAI, em Caxias do Sul. Era um centro de excelência em automação (a minha área!), e o salário era bom para quem não tinha bolsa!

Subindo a serra

Em janeiro de 1998, já estava morando na serra gaúcha. Fiquei 19 anos por lá, mas resolvi retornar à minha cidade natal para ficar mais próximo de minha mãe idosa e por ter melhores opções profissionais.

Sou professor na realidade há mais de 30 anos! O professor é um condutor de almas e sonhos, e é tão bom e gratificante participar da formação profissional de nossos alunos! Nesses anos todos, fui docente em vários níveis, desde a formação de jovens aprendizes até a qualificação de profissionais da indústria, também passando pela docência em engenharias e cursos técnicos. Também fui voluntário na docência de ensino especial, para alunos com deficiências intelectuais, turma PCD. Uma linda e inesquecível experiência…

Feito à mão

Hoje o avanço das ferramentas computacionais ajuda muito a engenharia e o engenheiro. A grande rede mundial de computadores faz a informação ficar na ponta dos dedos. Podemos baixar artigos e livros completos na rede em poucos segundos! Muito diferente do meu tempo de graduação, geração Xerox, plataforma DOS, rato de bibliotecas… Tempos modernos esses!

Na minha área de engenharia mecânica, por exemplo, para projetos de ar condicionado, hoje encontro e uso ferramentas de cálculo de carga térmica de plantas e ambientes, dimensionamento e desenho de dutos de ar. Quando aprendi na engenharia, era tudo feito na mão, demandando muito mais tempo. Idem para o desenho técnico, nas extintas mesas de desenho!

E lá se vão quase 30 anos…

Infelizmente, a modernidade também traz problemas. Vejo as novas gerações acomodadas com as facilidades de hoje. Pensar é uma coisa difícil, é mais fácil copiar. Plágio é coisa comum. De um modo geral, é uma preguiça conceitual buscando imediatismos e atalhos como um simples clicar. Geração digital, geração da preguiça e do imediatismo.

Na minha área, eu tenho visto uma classe profissional de técnicos denominados projetistas, que têm habilidades em desenho em CAD 3D. São contratados por baixos salários em comparação aos engenheiros, mas só sabem desenhar. Nada mais. Tempos atrás eu recebi uma mensagem de um ex-aluno pedindo ajuda em um projeto dele em uma empresa da serra gaúcha. Era um problema simples de relação de áreas e vazões. Ajudei como sempre faço – e questionei por que ele não perguntava ao engenheiro da empresa. Ele me comentou que era um profissional freelancer, contratado para desenhar as peças em CAD que eram modeladas para os moldes de injeção direto. A empresa (de porte) não tinha engenheiros!

Lamentável… e essa é a realidade do nosso país. Engenheiros estão sendo substituídos por técnicos, bem mais baratos… Os softwares de CAD fazem o resto. Perigoso isso, para dizer o mínimo. Tem que ter conhecimento para pilotar um software de CAD!

Tecnologia a nosso favor

Mas a vida continua, agora surge uma nova modalidade em que atuo como docente e discente. É uma via de duas mãos! É o Ensino à Distância (EAD), que facilita para quem mora longe dos grandes centros e tem problemas de horários. Hoje sou produtor de conteúdos de EAD, faço aulas de engenharia para a internet com vídeos, apostilas e avaliação.

Do mesmo modo, eu me beneficio dessa tecnologia, fazendo agora duas pós-graduações em EAD: Engenharia de Segurança do Trabalho e Engenharia Ambiental e Saneamento. Essas áreas complementam a minha área de engenharia. Aos 60 anos de idade, não podemos parar, sempre devemos nos qualificar, sendo agente ativo e passivo desses novos tempos…Como engenheiro e educador, hoje empunho a bandeira da sustentabilidade, do respeito às diversidades e da inclusão social nas minhas aulas, nas redes sociais e no dia a dia. Por uma educação acessível e de qualidade, por um mundo melhor, para cidadãos melhores, para uma vida melhor… eu faço a minha parte!

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